Editoras de mais e leitores de menos, uma crise que o Brasil nunca saiu

- Cadê os leitores?
É muito difícil redigir com precisão os problemas do mercado literário, sem ter como ponto referencial uma questão que encontramos nas disciplinas de economia a “oferta e demanda”. E neste caso, existe um relacionamento nada amoroso na indústria cultural brasileira, que vai desde as editoras e os leitores até ao governo e os escritores. Não que estes componentes devam ficar pareados necessariamente nessa ordem, mas infelizmente a flecha para a reversão do mau hábito da leitura e da precária situação do mercado literário está sendo apontada para os lados errados. Temos no mercado, editoras de mais e leitores de menos, paralelo a uma má formação cultural e projetos governamentais sem estratégia e planejamento.
As intenções estão aí, aos montes, mas muitas vezes escorrem ralo a baixo. Os programas de incentivo nem sempre alcançam com êxito ao que se propõem. Um exemplo disso ocorreu com o poeta Heitor Ferraz, que ganhou uma bolsa de incentivo a criação literária patrocinada pela Petrobras. Porém, disse em entrevista ao JB Online, que defende não só um incentivo financeiro para quem escreve, e a garantia de publicação, mas que exista uma ponte entre o autor e os leitores. “Ganhei dinheiro público para escrever o livro, mas e daí? O livro não pode ir para a livraria para alguns poucos lerem…” disse o poeta.
Um grande problema é que o mercado continua excluindo os novos escritores brasileiros. As livrarias e mesmo o público consumidor preferem ver nas prateleiras os “best-sellers” gringos, ou obras de escritores já consagrados no mercado nacional. “Para conquistar para a leitura devemos oferecer livros que podem ser mais simples, divertidos, mas que ao mesmo tempo garantam a exploração de certas ambigüidades de linguagem que caracterizam a literatura apresentem empregos inusitados do idioma, tragam exemplos de recursos lingüísticos criativos e carregados de invenção. Livros em que a simplicidade não seja confundida com a facilidade superficial”. Afirma a escritora Ana Maria Machado em seu livro “Ilhas no tempo: algumas leituras”. Certamente ao sugerir isso, já apontava para um problema que ocorre na iniciação do hábito de ler em nosso país. Onde por muitas vezes os professores obrigam os alunos a ler obras totalmente fora do universo infanto-juvenil, o que conseqüentemente impulsiona em muitos o desinteresse pela leitura.
Contudo, sinais de mudança já começam a acontecer, “hoje quem mais consome com livros é público que está entre a faixa etária dos 07 aos 17 anos, vai saber se foi o efeito Harry Potter” informou o jornalista Luciano Marques, que um ano após iniciar uma apuração sobre o mercado literário, teve sua reportagem publicada nesta terça, 29 de setembro, no Jornal Correio Brasiliense. “Não cheguei a colocar essa informação no jornal, mas acredito muito que a situação futura esteja em melhor plano, justamente por causa da geração atual que já começa a mudar de hábitos” disse. Só que as estimativas do futuro vão muito além do que ocorre no presente. Segundo o próprio jornalista, desde que começou sua reportagem, nada mudou em relação as editoras, pelo contrário, as tiragens até diminuíram. “A conclusão que tiro, sobre a indústria literária brasileira, é que poucas pessoas lêem por dois motivos, primeiro as obras tem um preço final muito caro para o consumidor, algo que poderia ser resolvido com alguma lei em prol do distribuidor, por exemplo, e o segundo motivo é que desde pequenos não temos incentivo e nem apoio dos professores nas escolas”.
Reverter essa situação seja a do mercado literário que temos, ou a da má iniciação dos jovens aos livros é um motivo muito preocupante. Pois segundo a assessoria de comunicação da Secretaria de Educação básica, o MEC – Ministério da Educação – não adota no momento, nenhuma campanha nacional de inserção a leitura e que isso ocorre no sistema de escola para escola.
Se teremos um futuro próspero no âmbito da cultura brasileira e principalmente no hábito de ler do brasileiro é algo que só o tempo irá dizer. Mas uma coisa é certa, no Brasil infelizmente as ações ainda são muito voltadas para o mercado editorial, é preciso priorizar na formação dos leitores. Uma reflexão disso se dá na declaração de José Castilho, Secretário Executivo do Plano Nacional do Livro e Leitura, ao JB Online “Não há como tratar separadamente a questão da escrita e da leitura. Não se pode consolidar uma coisa sem outra. Sempre apostamos nas soluções mais complexas”.