Publicado por: Leonardo Brito | 26 26UTC novembro 26UTC 2009

Este mundo é um Pandeiro: a chanchada de Getulio a JK / Sérgio Augusto

No ritmo do Pandeiro

Antes de qualquer comentário, queria chamar a atenção para a capa do livro. Pelos inúmeros lugares onde passei, tendo a obra de Sérgio Augusto como uma inseparável companheira, era praticamente certo perceber muitos mirando o livro. Não sei ao certo, mas imagino que o rosto do maior comediante das chanchadas brasileiras, Oscarito, que tenha chamado a atenção. Ou quem sabe, o título, “Este Mundo é um Pandeiro: a chanchada de Getúlio a JK”, que além de curioso, deve ter deixado bastante jovem a se perguntar: chanchada?
Isso mesmo, chanchada. Um gênero do cinema brasileiro que aos dias de hoje foge do conhecimento de muitas pessoas das gerações mais recentes. Claro, injustamente. Pois num período, em que o Brasil recebia cerca de mil filmes norte-americanos por ano – entre curtas e longas – a nossa chanchada com um humor quase sempre ingênuo, ás vezes malicioso e até picante, se portou como altamente competitiva. Contudo, se hoje elas são obras admiráveis, algumas até dignas do título de “clássicas”, no passado a receptividade não era a mesma. Pelo menos não se tratando dos críticos daquele tempo, que a execrou desde seu surgimento em 1941, até o a sua decadência em 1961 – já governo JK.
E foi com o anseio de fazer uma revisão desse ciclo cinematográfico, duramente incompreendido e mistificado do cinema brasileiro. Que o crítico e jornalista, Sérgio Augusto, se engajou numa intensa série de estudos e pesquisas inteligentíssimas, que resultou num trabalho simplesmente primoroso. Indispensável em qualquer estudo sobre a história do cinema nacional. De 1961, ao lançamento da obra em 1989, muita coisa mudou. O que dizer então desse quase meio século em que a nossa sociedade sofreu grandes transformações, mas, que mesmo assim, não deixou de levar a vida como um pandeiro? A obra de Sérgio Augusto retrata bem em seu enredo, com fatos que são elucidados à medida que segue a linha cronológica dos anos, as mudanças comportamentais da nossa sociedade.
O sofrimento humano, o regime político e o deplorável sistema econômico que existiam, atingia principalmente os mais pobres e os insatisfeitos com o sistema. Que ainda tiveram de sentir na pele a repressão social e política do período. Entretanto, “Este mundo é um Pandeiro” foi um título motivador. Que no sentido mais perspicaz, ou nas rodas de conversas cariocas, trouxe para a palavra pandeiro o sentido de “bumbum”, bumbum generoso. Ou seja, dava a sugestão de não nos aborrecermos demais com aquelas situações, pois sempre existiria um pandeiro – uma bunda linda – desfilando por aí.
“Filmes menores e sem expressão”, essa era uma das mais leves classificações de Moniz Viana quanto às chanchadas. Apontado como o imperador da crítica, não tinha piedade alguma dessas produções. Talvez fosse mesmo pela precariedade e incúria que eram realizadas estas produções. Ou por tratarem sempre nas películas a malícia e a malandragem carioca, que a sociedade elitizada – figurada por inspirações européias – preferia repudiar.
Atualmente as chanchadas adquirem um sentido histórico. E é necessário que a tratemos assim. Não temos mais aquele público ingênuo, para que se haja uma ressurreição do gênero – coisa que certamente não teria êxito. E também levemos em conta todo o ambiente sócio-político que estava ao redor desse movimento. O que mais uma vez a união da astúcia, inteligência e empenho de Sérgio Augusto soube tratar com a devida importância nesse processo. Que narra em suas entrelinhas a complexa realidade do cinema entre o segundo governo de Vargas e os anos JK.
O flashback de Sérgio Augusto primou por justiçar o gênero, que por anos teve, e ainda tem um posicionamento negativo por alguns críticos. É verdade a precariedade técnica das comédias que foram registradas pelos estúdios da Atlântida. Porém, Sérgio Augusto sabiamente nos lembra que não podemos dispensar os grandes talentos que deram sua contribuição nestes filmes. Oscarito, Emilinha Borba, Luiz Gonzaga, Grande Otelo, Marlene, Dercy Gonçalves, Watson Macedo e Carlos Manga, são nomes que até mesmo os menos interessados nesta arte ouvem, ou já ouviram falar alguma vez na vida.
Apesar de tudo, as filas das bilheterias dos cinemas eram enormes. Hoje, grande, é o número de dissertações e trabalhos acadêmicos sobre o gênero. E agora, depois do árduo trabalho de Sérgio Augusto. O raciocínio mais claro e lógico que o livro e o tempo nos trás, é que as chanchadas nada mais eram que as comédias de costumes que estamos acostumados a ver aos montes em séries televisivas. Que retratavam com humor as mazelas do povo brasileiro, que estavam aí, aos olhos de todos. E se ainda assim existirem resistências quanto ao papel das chanchadas, e da importância do livro de Sérgio Augusto na história e no estudo do cinema brasileiro. Resta-nos simplesmente ignorá-las, “pois este mundo é mesmo um pandeiro”.


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