Publicado por: Leonardo Brito | 28 28UTC janeiro 28UTC 2010

CRIANÇAS DESAPARECIDAS NO DISTRITO FEDERAL

O DF é a unidade da federação com maior número de crianças desaparecidas. Eficiência, ou má gestão?

O Ministério da Justiça revela em uma pesquisa realizada entre o período de 2000 a 2009, que o Distrito Federal é a unidade da federação com maior índice de crianças desaparecidas. Ao todo são 299 casos. A cidade do DF com o maior índice foi Ceilândia, com 122 casos registrados seguida de Brasília com 99 casos, Taguatinga 85, Samambaia 87 e Planaltina com 84 registros. Dados confirmados pela SEDEST – Secretaria de Desenvolvimento Social – existente há 41 anos, completa a informação notificando que desses 209 casos 47 não foram solucionados, e que talvez para alguns nem haja solução.

A delegada de proteção à criança e ao adolescente do DF, Gláucia Cristina da Silva, disse em entrevista ao Globo On-line, que o motivo de o Distrito Federal ter o maior índice de crianças desaparecidas está na reformulação e desenvolvimento do programa de apoio aos desaparecidos. Sua eficiência e aproximação com a sociedade viabilizam a rápida inserção dos dados daqueles que desaparecem, causando assim, um grande número de registros.

Gláucia Cristina mostra como exemplo a cidade da Ceilândia, que apresenta o maior índice do DF, pois há cinco delegacias atuando no registro a essas crianças o que aumenta a demanda. E revela que mais de 90% dos casos são crianças que fogem do lar, por maus tratos ou abusos sexuais. E quanto a adolescentes os casos estão relacionados a namoros proibidos ou opção sexual rejeitada pela família.

Os casos não solucionados são contextos mais graves, que na maioria às vezes envolvem o tráfico dessas crianças para a prostituição, ou vendas no exterior para adoções, assassinatos e envolvimentos com drogas. Instituições, ONGs, Blogs e empresas apóiam a causa com projetos paralelos à busca aos desaparecidos no Brasil. Como é o caso da CEB, que expõe na conta de luz fotos de pessoas desaparecidas. O site do Correio Brasiliense, trás também, fotos de crianças desaparecidas, e ainda reconstrói a fisionomia da criança após alguns anos para facilitar a busca.

O governo, após iniciativas não governamentais, implantou um programa de busca a pessoas desaparecidas, que também atua junto às famílias em todos os casos fornecendo apoio psicológico. O SICRIDE – Serviço de Investigação de Crianças e Adolescentes – por exemplo, é uma unidade policial especifica para os casos de crianças desaparecidas. Essa organização treina e capacita profissionais do programa “Caminho de volta”, e atua com atividades de prevenção junto às famílias.

Não há registros concretos da quantidade de crianças desaparecidas. Existem sites de buscas desatualizados e muitos sites incompletos, que mostram uma causa abandonada pelo descaso. No site da SEDH – Secretaria Especial dos Direitos Humanos – encontram-se fotos de pessoas desaparecidas. O site está desatualizado. É possível visualizar, por exemplo, a foto da jovem Isabela Tainara, que esteve desaparecida por mais de 20 dias. A adolescente morava no Sudoeste e foi encontrada morta pela polícia, que localizou parte do seu corpo em um terreno baldio.

A maioria dos sites de busca a crianças desaparecidas estão desatualizados. Em sites de busca, encontram-se registros desumanos de algumas crianças e adolescentes. As fotos – postadas por parentes à procura do ente ou provavelmente postadas por agentes – revelam pessoas hospitalizadas com tubos e curativos. Prováveis acidentes.

Encontra-se também pessoas com problemas mentais, que foram abandonadas pelas famílias ou se perderam delas. Médicos ou agentes postam essas fotos em busca de das famílias ou de uma identificação. Dentre as fotos de crianças desaparecidas encontramos o caso do menino Rui Pedro Levada que desapareceu em 1998 em Portugal. Anos depois, o pai do menino o identificou em um site de pornografia infantil.

As Unidades de Serviço do Distrito Federal

A Sedest junto a Polícia Civil são os dois únicos órgãos ligados ao resgate, e à prevenção contra o desaparecimento de crianças e adolescentes no Distrito Federal. De acordo com a secretária da Sedest, Eliana Pedrosa, a prevenção é um dos focos no trabalho da Secretaria com as famílias. Ela pondera também, a importância de uma pesquisa aprofundada sobre os motivos que levaram a criança a fugir, os que a atraíram para a rua e os que permitiram que ela ficasse fora de casa.

Eliana Pedrosa participou no dia 10 de novembro, de uma das reuniões da CPI das Crianças e Adolescentes Desaparecidos. Na ocasião, explicou os números apresentados pelo Ministério da Justiça que apontam o DF como líder no ranking de desaparecimento. “Não é que o DF lidere na questão de maior número de casos. É que nós temos o melhor sistema de registro. De 2007 a 2009, registramos 3.726 casos, sendo 570 ainda não solucionados. No sistema do Ministério da Justiça, em nove anos só constam 299 casos. A tabela de lá diz que Sergipe apresenta mais casos do que São Paulo. Isso demonstra que os dados são falhos”, explica.

Já no dia 26, quem procurou o posto de atendimento 24 horas da Sedest, que fica localizado em frente o Conic, no Plano Piloto, encontrou portas fechadas. Carlos era um dos únicos funcionários da secretaria, que estava no local junto ao veículo usado para o patrulhamento noturno. Estavam ali, sem trabalho algum a fazer. No posto, são prestados serviços que atendem as denúncias de casos de maus tratos, e a localização de crianças desaparecidas. Porém, estão suspensos desde o dia 18 de novembro, devido a uma greve. Segundo o funcionário, nos dias de funcionamento normal o posto opera com psicólogos e assistentes sociais. Contudo, a baixa média salarial e a falta de um plano de carreira ocasionaram a suspensão do serviço.

Aqueles que recorrem à ajuda da Polícia Civil, serão informados que o procedimento de espera de 24 horas após a constatação da pessoa desaparecida, é algo que já não ocorre mais. Os casos são registrados de imediato. Porém, cabe aos familiares fazerem a ronda a hospitais e IMLs, antes de se encaminharem à delegacia. A polícia informou também, que a patrulha é feita. Mas, só se existir a disponibilidade de funcionários, materiais e veículos. No site da Polícia Civil do DF, é fornecido o serviço de registro on-line. O notificante preenche campos com características físicas do desaparecido, e detalhes de seu desaparecimento. Ao usar este recurso, o registro IP do computador de acesso ao site é registrado para a identificação do usuário, e prevenção contra possíveis casos de trotes.

Três meses fora de casa

“Eu queria falar para a minha mãe, que estou vivo que estou feliz e que sempre estou pensando nela”. É o relato de P.C. de 15 anos, que há três meses se encontra fora de casa, morando na rodoviária do Plano Piloto. O garoto de aparência típica de quem mora nas ruas, anda sujo, com a pele abatida e já perdeu quase todos os seus dentes. No início, andava pela rodoviária vendendo balinhas. Hoje, a ingenuidade e um sonho inocente são pensamentos de sua mente, “eu queria arrumar um dinheiro bom mesmo pra ir para casa, mas eu gosto da rua sempre gostei da rua”, diz.

P.C. fez questão de esclarecer que sua mãe sempre foi uma pessoa boa, e que nunca sofreu maus tratos por ela. Porém, o desejo de reencontrar a família se perde junto a sua contradição. Ele fica perambulando sem destino durante todo o dia, e ao mesmo tempo em que mostra o seu gosto pelas ruas, não esconde que voltaria para casa se tivesse a oportunidade. “O convívio com minha família era normal, saí de casa porque quis”, disse o menino que integra o perfil de muitas crianças que saem de casa por vontade própria.

Na teoria, os serviços de prevenção e resgate a crianças desaparecidas funcionam a todo vapor. Mas não foi o que aconteceu neste caso. “A polícia já chegou, mas eu falei pra eles o mesmo que te falei o pessoal da Promoção Social já veio, mas não perguntaram nada”, relatou P.C., mostrando as falhas e o descaso do sistema quanto ao assunto. Não existem riquezas materiais que substituam o afeto e o amor que uma criança necessita. Foi o que a dor da saudade e da carência, o fizeram expressar: “felicidade pra mim, é a minha mãe”.

No lugar das famílias

A estrutura emocional das famílias que perderam algum parente é algo que fica totalmente abalado. Principalmente com as mães dos desaparecidos. Embora nunca deixem de pensar em seus filhos, tocar nesse assunto sem informações positivas é muito doloroso. Com esse respaldo, e prezando por um trabalho que não fosse conduzido pelo lado emocional e que transmitisse as reais informações dos fatos decorrentes no Distrito Federal. Houve a preferência de ouvir as mães que nunca passaram por essa situação.

Ranielle Araújo, 24 anos, é mãe de Beatriz, 04 anos, filha que considera a coisa mais importante da sua vida. “Nem penso na hipótese de perder minha filha, podiam me internar, porque eu ia tentar me matar, não suportaria essa dor”, expressou Ranielle. A jovem mãe diz que não se imagina nessa situação, “ainda mais sendo ela o meu bem mais precioso, iria pedir forças pra Deus, iria a tudo que fosse lugar atrás dela. Uma mãe faz tudo por um filho. Acho que no princípio, é muito complicado pra quem perde um filho”. Isso é o que passa na mente da mãe, que acredita que com o passar do tempo, Deus vai confortando as famílias. Mas crê também, que é muito difícil e doloroso, principalmente pra quem tem um só filho.

Sentimento e respostas expressadas também Carla Rezende, 35 anos mãe de um casal de filhos. Ela teve seu primeiro filho aos 23 anos, e a coisa que mais preza na vida é a sua família. “Se meus filhos desaparecessem, eu morreria. Eu iria entrar em desespero total. Moveria céus e terra para encontrá-los”, disse Carla. Ela ainda citou o “caso Nardonni”, onde sofreu o tempo todo. “O sentimento de perda é muito grande, a jente que é mãe, sempre se coloca no lugar dessas mães que sofrem pelos filhos. A jente sempre sofre junto com elas”, ponderou. Carla acredita ainda, que nunca um filho substitui o outro. Para ela o amor é único, “Nem quem você tenha outro filho, isso não supre. Aquele vazio vai ser eterno”.

Nem a maturidade muda o sentimento e a singularidade das opiniões das mães. Algo que vemos claramente no depoimento de Marli: “Nunca passou pela minha cabeça perder um filho. Isso não passa na cabeça de uma mãe. Quando tive a minha primeira filha mesmo, pensei que ela ira viver para sempre”. Apesar dos 51 anos e de seu filho caçula ter 18 anos, Marli diz que se perdesse um de seus quatro filhos, iria procurar com anúncios em todos os postos policiais. Para ela, uma das maiores angústias deve ser a dúvida, de o filho estar vivo ou não.

Para falar em combate ao desaparecimento de crianças e adolescentes, é necessário pensar em programas de prevenção, que atue junto às famílias. Onde órgãos e a mídia possam trabalhar junto à sociedade atuando no contexto familiar para uma modificação de conceitos e atitudes. E também, junto aos adolescentes. Atuando como educadores, para então, conseguirmos ver a mudança no índice de desaparecidos, já que 90% dos casos ocorrem por conflitos familiares.

Quanto aos casos mais graves, como seqüestros, tráfico, abandonos e acidentes, tem que existir uma consciência social de denúncia e gestões de políticas públicas, de segurança social e demais órgãos que atuam nas fronteiras. Também a sociedade, na observação quanto às crianças desaparecidas para uma possível identificação e auxilio as famílias, a mídia e demais órgão pressionarem o governo que por si só deveria intensificar os programas apropriados de busca aos desaparecidos, atuando junto aos órgãos militares e embaixadas para os casos de tráficos de crianças. É visível que o efeito negativo está totalmente relacionado à má organização de políticas públicas de prevenção da segurança social do país.

O descaso no Brasil ainda é assustador. Tanto por parte do governo, como da sociedade. Mas talvez haja uma solução quando todos pensarem, e se comoverem com aquilo que as mães passam e que é pensamento de Marli. “Uma mãe não mede esforços pelos filhos, a maior razão de viver de uma mãe, são seus filhos” declara.


Respostas

  1. Uma mãe que acorda e percebe que seu filho não está na cama ,e em lugar nenhum de dentro nem de fora da casa.Que procura por todos os lugares possíveis.Acha ele suginho e com roupas maiores que o tamanho dele…
    É essa a minha realidade,aconteceu comigo;uma,duas,tres vezez e mais vezes.
    Ele saia de casa limpo arrumado,e eu algumas vezes o achava em locais distantes de nosso bairro.
    Ele não gostava de ser localizado,e isso me assustava mas eu não encontrava uma saída.
    Numa das ocasiões eu o encontrei dormindo no banco de um ônibus,noutra era uma hora da madrugada ,ele vinha caminhando sem destino e de cabisbaicho .Meu filho estava caminhando como se fosse dia claro.
    Sinto tanta saudades dele!!! É UMA SAUDADE QUE DÓI DIA E NOITE.Não tenho mas forças para continuar procurando-o,mais não perdi a esperança de vê-lo adrentrar pelas portas de nossa casa.Este é o sonho que não me deixa morrer.E ainda quero vê-lo com o violão tocando e cantando ,pois ele gostava muito de violão ,aprendeu tocar várias notas musicais e tem uma bela voz.que me parece é um tenor.
    O Flávio Carvalho Chote é branco,comunicativo,tem os olhos eos cabelos castanhos claro.Deve ter hoje a altura de 1m e74 aproximadamente.Era amigo,respeitador e de bns hábitos.Saiu para fazer uma visita a uma família e não retornou,era esta data 27 de setembro de 1992.Isso no Rio de Janeiro,em Campo Grande.
    Ajudem-me a localiza-lo, ou receber uma notícia do paradeiro dele, por favor.


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