Publicado por: Leonardo Brito | 29 29UTC dezembro 29UTC 2010

Dez anos de Atitude Feminina

Grupo feminino de rap do Distrito Federal comemora dez anos de trabalho. Com reconhecimento nacional, prepara o lançamento de seu segundo CD

Com atitude, grupo tenta mudar vidas por meio da música

Formado por Hellen, Gisele e Aninha, o grupo de rap Atitude Feminina comemorou em junho dez anos de trabalho. Trazendo sempre em suas músicas o protesto contra a violência doméstica e discriminação das mulheres de classes menos favorecidas da sociedade, Atitude já está terminando seu segundo CD.

Moradoras da cidade de São Sebastião, as integrantes do grupo ganharam visibilidade no cenário do hip hop nacional com o videoclipe “Rosas”, que discorre sobre a violência contra a mulher.

Em 2008 cantaram como convidadas no Senado Federal, em comemoração ao Dia da Mulher, sendo o primeiro grupo de rap nacional a se apresentar no Senado. Já em 2009, ganharam o Prêmio Hutúz, festival de hip hop organizado pela Central Única das Favelas, como grupo revelação da década.

Na entrevista, Aninha conta toda a trajetória do grupo, revela os momentos de discriminação já sofridos e o sentimento do trabalho realizado. Esclarece ainda, que o maior sonho do grupo não é o reconhecimento, mas, poder mudar vidas por meio da música.

Preconceito. O Atitude Feminina é um dos poucos grupos musicais formado só por mulheres no Brasil. No cenário do rap nacional o grupo é referência do gênero. O Atitude sofreu ou sofre algum tipo de preconceito?
Aninha: O preconceito está dentro da gente. Cara, teve baile que os cara puxavam as pick-up para a gente não cantar. Ainda rola discussão quando vamos para um show. Se a gente cantar antes que os cara, eles ficam P… Rola muito isso ainda, mas nós somos respeitadas. Hoje falam que somos inspiração para todas as mulheres. Eu não acreditava nessa história. Até ir para um fórum onde estavam reunidas mais de 5 mil mulheres do rap nacional e de fora do Brasil. Tive que dar uma palestra nesse fórum, e de repente começaram a gritar que o Atitude Feminina era inspiração. Então hoje eu vejo que o Atitude é exemplo. Às vezes vem uma pessoa e diz: “Pô a sua música mudou a minha vida, eu parei de traficar por causa da sua música” Falar que alguma coisa na vida mudou por causa da nossa música, pra a gente é tudo.

O vídeo-clipe “Rosas” já tem quase 2 milhões de visitas no Youtube. O que essa música representa para vocês?
Aninha: Rosas é nossa vida! Minha mãe passou por violência e sofreu muito. Assim como a mãe de cada uma das meninas do grupo. É a realidade, não é nenhum conto de fadas. É um fato que acontece com a mulher, e se ela não denunciar o final dela vai ser esse. No começo era só mais uma música para o CD, até mesmo porque agente tinha vergonha de falar sobre isso. Como você vai falar do seu íntimo, da sua vida particular através de uma música? Quando foi feita a música todo mundo acreditava que não ia tocar em lugar nenhum. Passou uma semana a música estourou.

Como surgiu o Atitude Feminina?
Aninha: A primeira formação foi há 10 anos, com a Jane, a Hellen e a Gisele. Depois de seis meses que o Atitude estava formado eu entrei no grupo. Não vou dizer que foi tudo maravilhoso até porque não foi. Teve baile que rolava tiroteio e a gente no meio, sem saber o que fazer. Não podia correr e também não podia ficar parada senão tomava tiro. Hoje a Jane não está mais, ela está levando a vida gospel. Também teve a Lalá, que cantou no grupo por três anos, mas acabou saindo.

Que mensagem o Atitude tenta passar em suas músicas?
Aninha: Nosso intuito é atingir aquele moleque menor e passar que o crime não compensa. Ou vai morrer ou ser preso. Acredito que a nossa música não veio só para entrar na cabeça de um adolescente, mas de uma mãe. Porque o preconceito ainda existe no rap. Pô, aquela música lá de bandido… Pô, aquelas mina são louca, tão bonitas e estão cantando rap? Mas assim, é uma coisa que a própria Helen vive declarando, é um sonho.

Qual o sentimento de vocês com o trabalho realizado ao longo desse tempo?
Aninha: Quando as pessoas escutam o Atitude hoje, vê uma música consciente. Uma música que vai ajudar num colégio ou numa pesquisa. Então, se um pouquinho de Rosas entrar numa família, De que vale o crime entrar na cabeça de um adolescente que quer se envolver com gangue ou de uma menina que está usando drogas, isso já é tudo pra gente. Não interessa se vamos fazer sucesso ou ganhar prêmios.

Como o Atitude Feminina é recebido pela comunidade do Distrito Federal?
Aninha: Pela comunidade nós somos recebidas muito bem. Mas como santo de casa não faz milagre… Alguns cantores de rap da cidade boicotam muito a gente. Por quê? Porque era amiga das meninas do Atitude e achava que ia pegar o bonde e ir junto. Rola isso, rola o ego. As pessoas acham que porque a gente vendeu cinco mil cópias ou porque ganhamos alguns prêmios, como o Hutúz, que a gente mudou.

Você se considera uma pessoa de atitude?
Aninha: Sim, até mesmo porque para estar no Atitude Feminina já briguei com muita gente, principalmente em São Sebastião. A gente é de lá, e somos boicotadas mesmo! Por pessoas que dizem que fazem rap, que fazem trabalho social, e é tudo mentira. Sou uma mulher de atitude. Para você estar no rap tem que ter atitude. Têm pessoas que estão no rap para ver estrelas brilhar. E têm pessoas que estão no rap para livrar um usuário das drogas. A nossa música atinge dentro de um presídio. Você imagina, São Sebastião tem a Papuda, Núcleo de Custódia, Cascavel e o Ciago, o tanto de preso que escuta! Então eu acredito que tenho atitude.

Atitude encara a responsabilidade de influenciar a vida de vários jovens?
Aninha: Vejo Atitude como uma geração que irá mudar um pouquinho a cabeça de alguns adolescentes. Dos amigos da minha época acredito que hoje o que não está vivo está preso. E os da minha idade que não morreram, ou que não foram presos, ensinam os meninos a fumar e a vender. Então a nossa preocupação é a de mudar um pouquinho a cabeça desses jovens. Tudo o que é feito com originalidade e verdade acaba influenciando.

Quais os próximos planos do Grupo?
Aninha: O nosso novo CD está vindo com denúncia de novo. Está vindo forte, com pessoas importantes do rap nacional. O CD está diferente. Estou cantando mais, não estou fazendo só back, me obrigaram a fazer levada. E tem uma grande participação de uma grande mulher do rap, que foi a Dina Di, que faleceu este ano depois de dar a luz a sua filha. Ela deixou uma gravação, uma participação única no nosso CD É uma música fortíssima. Uma música que vai surpreender vocês. Teremos surpresas.


Respostas

  1. Muito legal o trabalho social que o grupo
    desempenhar.

    Parabéns a entrevista ficou muito boa!


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